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Contra a maré - Modern Warfare II

O símbolo atual dos jogos cinematográficos - salvo talvez apenas pelas longas animações de Kojima em MGS4 - finalmente chegou ao mercado cumprindo todas as promessas de sucesso no lançamento e vendas recorde.

Nesse exato momento milhares de pessoas estão aproveitando o modo multiplayer, principal atrativo do jogo e garantia de muito faturamento no médio prazo para a produtora.

Tudo está melhor, maior e mais imponente. Tudo. Menos, talvez, a essência do game. Clique abaixo para continuar lendo.

Modern Warfare II cai, como muitos antes dele, no mesmo poço da mesmice que assola as franquias e títulos louvados pelos consumidores. Em inglês simples, diríamos que o primeiro jogo ‘has set the bar too high’, ou em português adaptado, ‘elevou demais o nível o nível de expectativa’.

Call of Duty 4 foi um marco em diversos sentidos. Primeiro, ele estabeleceu uma narrativa muito mais interessante para o gênero de FPS, colocando o jogador no meio da ação e em situações bem diferentes dos tradicionais combates.

Segundo, o game virou febre online graças ao seu sistema de melhorias baseadas na performance (upgrades de habilidades) que incentivou as pessoas a ficarem muito tempo no modo multiplayer - o qual, claro, é bem divertido.

Esses importantes aspectos seriam valorizados na sequência mas, infelizmente, não em sua plena evolução como eu desejava (afinal, é só minha opinião).

Em MW 2 são usadas as mesmas mecânicas e técnicas para contar a história e envolver o jogador. Tudo bem, elas podem ter particularidades, mas no geral é a mesma coisa que vimos no jogo passado. A mesma não; bem mais do mesmo.

Os estúdios sempre têm ideias sobrando quando terminam um game e me dá a impressão de que a Infinity Ward quis costurar tudo isso no título atual. Sequências que lembram muito CoD 4 acontecem a todo momento, focando na câmera pesada, no sofrimento do personagem, etc. Toda hora.

Tudo bem, pode-se dizer que isso é uma nova marca da série. Entretanto tendo mais a acreditar na hipótese de repetição do que deu certo. O próprio enredo do jogo é uma bagunça só, provando que ele só serve de simples base aos momentos de cinema.

Estou longe de querer um Deus EX ou Indigo Profecy em questão de narrativa. Mas se há uma história tão belamente apresentada nas animações entre fases, com vozes, gráficos, CG e muito mais, ela poderia ser melhor amarrada e contada.

Não vou ficar dando spoilers do jogo, mas tirando uma reviravolta que ocorre no meio da aventura, todo o resto não faz sentido algum e é apenas desculpa para você viajar entre Alasca, Rio de Janeiro, EUA, Afeganistão e Rússia. (no podcast do GamerView até brincaram dizendo ser o ‘jogo dos Ducktales’).

Quem está lendo deve achar que não gostei do jogo; calma, não é bem por aí. A questão é que sempre encaro os games sob esse ponto de vista mais amplo. Um jogo médio, para mim, está ótimo, pois isso é a enorme maioria do que temos por aí.

Modern Warfare II é um jogo médio dos bons. Mesmo com esse design sem propósito e que busca enganar o jogador com cenas fortes, o game funciona na hora de bombar adrenalina. Sua curta missão single-player ajuda a tornar tudo mais prazeroso e deixa vontade de tentar de novo.

A parte visual, claro, é impecável mas não vejo nenhum avanço considerável. Melhores texturas, modelos e animações eram esperadas e o game certamente ficou mais bonito ainda.

E para não deixar escapar esse pensamento, MW II melhorou em visual mas piorou em experiência plena (single-player). Curioso, não? Mesmo com mais tecnologia e ideias, o estúdio acabou se perdendo no meio do caminho.

Voltemos ao início do meu post, quando digo que um grande sucesso é perigoso por subir o nível de exigência do consumidor. Vejam Mario 64. A Nintendo só lançou outro Mario 3D no Cubo e ainda com uma mangueira de água nas costas. Depois, Mario Galaxy.

Isso é um sinal de que a empresa sabia que Mario, caso lançado sem novidades, poderia perder o encanto. Inclusive acho que Super Mario Galaxy 2 pode ser ótimo, repetindo tudo de bom que o primeiro teve, mas é quase impossível ser melhor.

No mundo atual das franquias e game-business, podemos esperar cada vez mais do mesmo. Além de ser garantia de sucesso imediato com os fãs próximos, essa mentalidade exige menos gastos com desenvolvimento do que jogos inovadores.

Há também a influência da produtora na criação do jogo. A falta de mods e servidores dedicados para MW II no PC é uma forma de a Activision vender seus packs de novos mapas. Sem contar que o jogo custa US$60, muito alto para pouco conteúdo 100% novo e ainda onerando nossas máquinas e conexões ao nos fazer hospedar as partidas.

As fases Special-Ops são compensações ao curto single-player, reciclando cenários com objetivos genéricos – mas apresentam boas sequências para se jogar com amigos ou caçar achievements. E adivinhem só? Novas Ops podem ser vendidas no futuro com suporte para até quatro pessoas (L4D, anyone?).

Eu diria que dá para se divertir bem com algumas das missões Special-Ops, mas é pouco perto do potencial que o jogo todo tinha. O ponto mais emblemático, a tal fase do aeroporto, é um claro sinal de busca vazia pela polêmica e pelo choque do jogador, sem trazer real propósito à evolução do jogo.

Você não pode mudar nada, alterar nada, influenciar nada. A experiência cinematográfica está chegando a um ponto em que assistimos aos games e interagimos de forma bem pré-determinada: diversos pontos para ‘cover’ bem posicionados, objetivos sem explicação a não ser o avanço do enredo, NPCs que não reagem aos seus movimentos enquanto falam (pô, Half-Life 2 tinha isso…).

Enfim, só levanto essas questões para que o jogador sempre se lembre pensar sob vários ângulos quando ler ou ouvir falar sobre um jogo. Tirando as belas obras independentes, todo o resto é produto de trabalho e visa o lucro.

Mesmo que a realidade dos videogames seja gerar receita, precisamos sempre ficar atentos a qualquer desequilíbrio na balança que a produtora tem com Dinheiro vs. Consumidor. Algumas decisões não são reais benefícios.

Porque no final das contas, é o consumidor que vai dizer com seu dinheiro se ele quer, ou não, Modern Warfare IV com uma explosão de bomba atômica por fase. Esse passou, mas não marcou.

Nota do editor: aos fanáticos pelo game, lembro que me refiro nesse artigo exclusivamente aos aspectos de design e concepção do jogo single-player e cito o multiplayer como sendo sólido e extremamente divertido.

pellican | 2 de dezembro de 2009 | 16:45 | Artigo []
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